Esse espaço é onde exponho meus devaneios mundanos...Enquanto ser existente, sou pretensiosamente reflexivo.
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domingo, 1 de maio de 2016
Aula de Anatomia
Na aula de anatomia veremos os corpos de indigentes,
Prontos para dissecação por mãos indiferentes,
A pele, os músculos e até os ossos: Tudo será estudado,
Menos o nome e a história do dito cujo finado,
Sem falar de sistemas econômicos, ou do quadro social,
Mas gostaria de saber como se chegou a esse ponto crucial,
Quem foi você? Alguém chorou por ti? O que aconteceu?
Quem velou teu corpo e quem te esqueceu?
Foram os parentes, os amigos? Enfim, falhamos como sociedade?
Como pode ser tão comum ver tamanha miséria em passividade?
Na sala ficam para estudo, aqueles corpos finados,
Frios, mas não tanto quanto há milhares de corações gelados.
Oração ao Cadáver Desconhecido
"Ao curvar-te com a lâmina rija de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas; cresceu embalado pela fé e esperança ldaquela que em seu seio o agasalhou, sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens; por certo amou e foi amado e sentiu saudades dos outros que partiram, acalentou um amanhã feliz e agora jaz na fria lousa, sem que por ele tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome só Deus o sabe; mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir a humanidade que por ele passou indiferente."
Karl Rokitansky (1876)
Ao cadáver, respeito e agradecimento.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Quanto vale um pouco de compaixão?
Compaixão não é vendida. O amor ainda não é comercializado.
A necessidade de carinho de outrem esbarra nas barreiras invisíveis que construímos ao nosso redor. Timidez é apenas uma desculpa. Medo de se machucar é na verdade uma maneira mais efetiva de se machucar a longo prazo. Sentimento que remói e que só causa dor.
Sentimento é espontâneo, não precisa de aviso e nem de hora marcada. O inevitável geralmente acontece quando não o esperamos, por isso, não adianta se lamentar com antecedência.
Compaixão não é comercializada (ainda). Amor pelo próximo é coisa rara. O sacrifício não é feito nem em proveito próprio. É tudo questão de conveniência.
A cobiça é o verdadeiro amor ao ego, e por sinal um amor incondicional e aparentemente infinito. Fraternidade é tão raro quanto fictício. Amizade parece ser "lucrável", e está passível de entrar no passivo de alguma empresa. Quiçá na bolsa de ações. (Peça ajuda a Santo Expedito!)
Humanidade aparece como um mito, e que só os heróis ideais e fictícios podem ter. A felicidade é vendida, parcelada e financiada. Vem nas cores de fábrica e pode-se escolher a forma de pagamento. Se aceita a alma, o rim, ou um olho em troca (ou algo que faça alusão a isso). Não se assuste com a solução dada.
Compaixão não tem na mercearia. Também não tem no Atacadão, e caso tivesse, estaria apodrecendo no estoque. Não ligam nem pra validade da compaixão. A admiração pode ser convertida em inveja. A opinião em egocentrismo. A razão se torna um bem imóvel, que reside dentro do cerebelo, e para alguns ainda dizem no coração.
As lembranças estão esquecidas, culpa do Alzheimer. A vergonha se vem pelo ego, e medo de se parecer estranho no mundo de gente estranha. O normal é padronizado pela mídia e pelo consenso inventado, mas não importa. O importante mesmo é parecer normal, inflexível e jogar na loto mania... Gente tacanha.
Compaixão não se aluga. Caso fosse possível, iria se perder valor frente ao “boom” imobiliário e sua especulação. É tão bom morar em um edifício de 190 andares com 18 quartos e piscina particular na varanda! Esse é o ideal para qualquer nação.
Não se fornece nem alimento ou água, porque forneceria algo tão nobre quanto à compaixão? Deve valer mais que ouro ou diamante. Deve valer tanto que não chega a ter preço. Não se empresta e não se vende. É imprestável e invendável! É um conceito de valor, que se encontra um tanto quanto doente.
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